Ela me dispensou com um aceno de mão, como se eu fosse um inseto que já não valia mais a atenção. Sem olhar para cima, sem um tchau, sem nada. Só aquele gesto seco, impaciente, me mandando embora. Minhas pernas estavam bambas quando eu alcancei a porta. Minha mão suou na maçaneta.
Quando eu abri, ele estava lá.
Rafael.
Meu coração deu uma cambalhota idiota que eu odiei imediatamente. Porque ele era lindo. Não justo, não bonitinho — lindo de doer, daquele jeito que você quer odiar mas seus olhos não obedecem. Cabelo preto impecável, mandíbula dura, olhos cinzentos que me varreram como se eu fosse sujeira na sola do sapato dele. E eu fiquei parada ali, feito uma idiota, o vestido azul-marinho apertando meu peito, o perfume grudado na minha pele.
— Ah, ainda bem que chegou — a voz da velha Lyn veio de trás de mim, doce como veneno. — Leva sua noiva para o quarto oficial dela. E não seja bruto, Rafael.
Ele não respondeu. Só me olhou. Um segundo. Dois. O desprezo nos olhos dele era tão puro que quase queimou.
A mão dele agarrou meu braço. Não com violência, mas com uma firmeza que não admitia discussão. Ele me puxou pelo corredor, me arrastou por escadas, por tapetes grossos que engoliam nossos passos. Eu tropecei duas vezes tentando acompanhar o passo largo dele. Ele não desacelerou uma vez sequer.
A porta do quarto — meu quarto, pelo visto — se abriu com um empurrão. Ele me soltou no meio do cômodo como quem larga um pacote indesejado.
Eu me virei no mesmo instante.
— Você pode me ajudar a sair daqui?
A pergunta saiu antes que eu conseguisse pensar. Rápida, desperate, um fio de esperança que eu nem sabia que ainda tinha.
Ele riu. Um som seco, curto, sem calor nenhum.
— Eu não sou um dos seus novos empregados, não. Não vou te levar pra passear.
— Que porra de empregados? — explodi, o medo virando raiva num piscar de olhos. — Eu não quero nada disso! Nada! Eu não pedi pra estar aqui, eu não quero me casar com você, eu quero ir embora!
Ele se moveu antes que eu visse. De repente estava perto demais. O peito dele quase no meu. Eu senti o calor do corpo dele antes de sentir qualquer outra coisa.
Ele inclinou a cabeça. Cheirou meu pescoço.
Um arrepio subiu pela minha espinha tão rápido que eu estremeci antes de conseguir me controlar. O que foi aquilo? O que tá acontecendo comigo?
— Quem te autorizou a usar esse perfume? — a voz dele era um sussurro roçando minha pele. — Quem?
Eu o empurrei com as duas mãos no peito. Ele nem se mexeu.
— Uma empregada — consegui dizer, a voz meio desafinada. — A Rosa. Ela que deu. Eu não pedi, não quis, não...
Ele se aproximou de novo. Dessa vez eu senti a respiração quente na curva do meu ombro.
— Não volta a usar se não quiser ter barriga, não.
Eu congelei.
— Você vai me ajudar ou não? — perguntei, forçando um deboche que eu não sentia. — Sim ou não?
O rosto dele endureceu.
— Não fala comigo assim. Eu não gosto nem um pouco de você. Você não é ninguém pra vir com exigências.
— Então? — minha voz tremeu na borda.
Ele deu um passo para trás. Me estudou por um longo segundo, os olhos cinzentos frios como pedra.
— Sim. Você vai colaborar com o plano. Até o dia do casamento.
— O casamento? — ecoei, um aperto no peito. — Quando?
— Três semanas.
— Três semanas? — minha voz subiu. — Por que tão longe?
Ele riu de novo. Dessa vez com mais veneno.
— Você é burra por acaso? Essa data é ideal. Você sabe quantas adorariam estar no seu lugar? Quantas dariam tudo pra vestir um vestido branco e entrar pra essa família?
— Eu não me importo — falei, firme. — Eu não quero isso.
A mão dele agarrou meu braço de novo. Apertou.
Uma batida na porta.
— Entra — ele soltou sem me olhar.
A porta se abriu. Rosa, a empregada, entrou com uma pilha de caixas. Mais roupas, pelo visto.
— Deixa tudo aí e sai — falei antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
Rosa arregalou os olhos, olhou pra ele, depois pra mim, e colocou as caixas no chão. Saiu rápido, fechando a porta atrás de si.
Ele me olhou com uma sobrancelha levantada. Um segundo depois, riu de verdade. Um som baixo, surpreso, como se eu tivesse feito algo inesperado.
— Você quer mesmo ir embora? — perguntou, o tom um pouco menos gelado. — Tem certeza?
— Sim — minha voz saiu firme. — E qual é o plano?
Ele me soltou. Andou até a janela, as mãos nos bolsos. Ficou olhando o jardim lá embaixo por um longo tempo.
— Você se casa comigo na data marcada — falou, sem se virar. — Faz tudo que minha avó manda. Aí, depois de um tempo, a gente se separa. Silenciosamente, sem escândalo. Cada um segue sua vida.
— E o bisneto? — perguntei, a palavra amarga na minha língua.
Ele virou a cabeça só o suficiente pra me ver pelo canto do olho.
— A gente finge. Por um ou dois anos. Depois, a gente diz que não consegue. Ela vai aceitar. Eventualmente.
Não era um plano. Era uma aposta. Mas era o único caminho que eu tinha.
— Meu irmão? — perguntei, a voz falhando no nome dele.
— Vai pra Londres. Melhor escola que dinheiro pode comprar. Você pode falar com ele toda semana. Prometo.
Eu olhei nos olhos cinzentos dele. Procurei uma mentira. Não achei.
— Três semanas — repeti, mais pra mim mesma do que pra ele.
Ele assentiu.
— Três semanas.
— E depois a gente se separa?
— Depois a gente se separa.
Um acordo. Feito de conveniência e desespero, mas um acordo.
Eu estendi a mão. Ele olhou pra ela, depois pra mim, e apertou. A palma dele era quente, seca, firme. O aperto durou um segundo. Depois ele soltou, virou as costas e saiu sem dizer mais nada.
A porta fechou.
Eu fiquei sozinha no meio do quarto, o vestido ainda apertando meu peito, o perfume ainda grudado na minha pele, e um acordo que podia me salvar ou me destruir.
Três semanas.
—
Uma semana depois, meu irmão já estava em Londres. Eu vi a foto que ele mandou — uniforme azul-marinho, sorriso torto no rosto, o jardim da escola ao fundo. Ele parecia feliz. Aliviado. Longe de tudo.
E o plano começou a desandar.
Rafael aparecia nos jantares, frio como sempre. Eu tentava seguir o roteiro — cabeça baixa, boca fechada, obediência fingida. Mas a velha Lyn me observava com aqueles olhos azuis que não perdiam nada. Cada gesto meu era medido, pesado, julgado.
Na segunda semana, eu comecei a sentir que algo estava errado.
Rosa me olhava estranho. Desviava o olho quando eu pegava ela me encarando. Uma vez, eu ouvi passos parando do lado de fora do meu quarto à noite, e depois o som de passos se afastando rápido.
Eu devia ter desconfiado.
Devia ter percebido.
Mas eu estava tão ocupada contando os dias que esqueci de prestar atenção nas pessoas ao meu redor.
—
Na véspera do casamento, Rosa apareceu no meu quarto com o vestido branco. Ela estava diferente. Mais quieta. Os olhos dela não encontravam os meus.
— Tá tudo bem, Rosa? — perguntei.
Ela assentiu rápido demais. Saiu sem responder.
Naquela noite, eu ouvi vozes no corredor. A voz de Lyn. A voz de Rafael. Mais alguém.
Depois, silêncio.
—
O casamento foi no jardim. Flores brancas por todo lado. Gente que eu não conhecia. Um padre que leu palavras que eu não ouvi. Rafael parado ao meu lado, o rosto uma máscara de gelo. Eu troquei votos que não eram meus. Coloquei uma aliança que não significava nada.
Ou devia significar.
—
Depois da cerimônia, Lyn nos chamou no escritório dela. A velha estava sentada atrás da mesa, os dedos entrelaçados, o sorriso de vitória nos lábios.
— Agora está tudo em ordem — disse, a voz suave como seda. — Vocês estão casados. A família está segura.
Ela olhou pra mim. Depois pro neto.
— Assim que a Isabela tiver o bebê, Rafael, você terá controle absoluto da empresa.
Ele ficou muito quieto ao meu lado.
— Mas — ela ergueu um dedo, o sorriso afiando — só se me der um bisneto. Um herdeiro legítimo. Sangue Silva.
Eu virei o rosto pra olhar pra ele.
Os olhos cinzentos dele brilharam.
Eu vi aquele brilho. Vi ele processar as palavras da avó. Vi o cálculo frio passando atrás dos olhos dele — controle absoluto da empresa, $$$, poder, tudo que ele sempre quis, tudo ao alcance dele, um herdeiro de sangue.
Um filho.
Nosso filho.
O chão sumiu debaixo dos meus pés.
O quarto rodou.
A última coisa que eu vi foi o brilho nos olhos dele, e a última coisa que eu pensei foi: o plano nunca foi um plano. Foi uma espera.
E eu desmaiei.

