A consciência voltou em camadas.
Primeiro o cheiro — lavanda e algo mais pesado, madeira talvez. Depois o tecido contra minha bochecha, seda fria, lisa demais para ser real. Minhas pálpebras pesaram, a nuca ainda doía surdamente onde o golpe tinha me apagado.
Forcei os olhos a abrir.
O teto era alto, com molduras de gesso que pareciam desenhadas à mão. Um lustre de cristal pendia no centro, refletindo luz em mil estilhaços contra as paredes claras. Eu estava deitada em uma cama que afundava sob meu peso como nuvem, colchas de linho branco, travesseiros fofos demais. O quarto era de um hotel cinco estrelas que eu nunca pisaria — só que não era hotel. Era o quarto deles.
Sentei-me num tranco, o coração disparando. A porta estava fechada. Janela grande, cortinas de seda creme, e do outro lado um jardim que parecia saído de revista. Árvores altas, flores vermelhas, uma fonte ao fundo.
Minha primeira reação foi fugir.
Levantei, os pés descalços no carpete macio. Atravessei o quarto em três passadas, minha mão na maçaneta — mas não tinha chave. Só do lado de fora. Bati com a palma na madeira. Nada. Bati mais forte.
— Ei! Tem alguém aí? Me solta!
Silêncio.
Recuei. Olhei em volta. O quarto era tão absurdamente bonito que doía — uma poltrona estofada em veludo azul, uma escrivaninha de mogno com papelaria monogramada, um vaso com lírios brancos. Parecia cenário de filme. E eu ali, no meio, de uniforme amassado, cabelo bagunçado, o gosto de pânico na boca.
Andei de um lado para o outro. Toquei nos livros da estante — edições antigas, capa de couro. Abri a cortina: gramado impecável, um labirinto de buxo no fundo. Uma casa grande. Muito grande. E eu trancada dentro.
Fiquei por horas. Ou pareceram horas. Perdi a noção do tempo naquela claridade artificial, o sol mudando de posição devagar atrás das árvores. Sentei na borda da cama, depois na poltrona, depois no chão, encostada na porta. Cada móvel era lindo demais para ser confortável de verdade. Eu queria odiar tudo ali — mas não conseguia. Era bonito. Maldosa e injustamente bonito.
A porta abriu sem aviso.
Uma mulher entrou, uniforme cinza claro, avental branco, cabelo preso num coque baixo. Ela carregava um vestido pendurado num cabide de madeira e um par de sapatos na outra mão.
— Bom dia, senhora — a voz dela era calma, profissional. — Meu nome é Rosa. Serei sua empregada pessoal.
Levantei num pulo.
— Que empregada pessoal? Que história é essa? Olha, teve um engano, eu não devia estar aqui. Você precisa me deixar sair. Eu tenho que ir pra casa.
Rosa não se alterou. Colocou o vestido com cuidado sobre a cama, os sapatos ao lado. Endireitou a barra, passou a mão no tecido azul-marinho, e só então me encarou.
— A senhora Lyn mandou dizer que sua colaboração é para o bem da família. E para o bem do futuro bisneto.
Meu estômago embrulhou.
— Que bisneto? Eu não vou dar bisneto nenhum pra ninguém. Que porra é essa?
Rosa não respondeu. Só me olhou com aquela calma de quem já viu tudo.
A sala começou a girar. O teto, o lustre, a cama fofa demais. Minhas pernas amoleceram, o sangue sumiu do meu rosto, e eu senti o chão vindo ao meu encontro antes de conseguir pensar em segurar.
— Senhora? — a voz de Rosa veio de longe. — Senhora!
Depois, nada.
— Senhora.
Acordei de novo com a mão de Rosa no meu ombro, me sacudindo leve. Eu estava deitada na cama, um pano úmido na testa.
— A senhora desmaiou — ela disse, sem julgamento. — Acontece. Primeiro dia é sempre o pior.
— Que primeiro dia? — minha voz saiu rouca. — Eu não vou ficar aqui.
Rosa suspirou, como se explicasse algo óbvio a uma criança teimosa. Levantou o pano, ajudou-me a sentar.
— A senhora é uma sortuda, sabe? Podia estar em situação muito pior. Agora, levante-se. Vou preparar seu banho. A senhora Lyn está esperando no escritório, e ela não gosta de esperar.
— Eu não vou tomar banho. Eu não vou vestir essa roupa. Eu não vou—
— Senhora — Rosa me cortou, firme, — se a senhora quer mesmo sair daqui, a melhor chance é falar com a matriarca com respeito e aparência decente. Ela não vai ouvir alguém de uniforme amarrotado e cabelo bagunçado. Confie em mim.
Eu odiava que ela tinha razão.
Levantei. Minhas pernas ainda tremiam.
O banheiro era do tamanho do meu quarto em casa. Mármore branco, banheira de hidromassagem, chuveiro com pressão que parecia uma cachoeira. Rosa deixou toalhas aquecidas sobre o bidê, um roupão felpudo pendurado na porta.
Tomei banho rápido, a água quente batendo nos ombros, tentando lavar o medo. Mas não saía. Estava entranhado, na nuca dolorida, nos dedos que tremiam ao ensaboar o cabelo.
Quando saí, Rosa já me esperava com um secador. Penteou meus cachos com uma paciência que me irritou, puxando cada mecha, aplicando algum creme que cheirava a coco e baunilha. Depois vestiu o vestido em mim como se eu fosse uma boneca — azul-marinho, corte reto, fechado nas costas com uma fileira de botões pequenos. O tecido deslizou pela minha pele, justo mas não apertado, acentuando curvas que eu nem sabia que tinha.
— Agora o perfume — Rosa disse, segurando um frasco de vidro âmbar.
Ela borrifou nos meus pulsos, atrás das orelhas, na base da garganta. O cheiro subiu ao meu nariz — jasmim, baunilha, algo almiscarado no fundo. Estranhamente sedutor. Como se a fragrância fosse desenhada para fazer alguém perder a razão.
— É muito forte — reclamei.
— É proposital — Rosa respondeu, com um sorriso que não alcancei.
Ela me levou por corredores largos, pisos de mármore polido, quadros enormes nas paredes — retratos de família, homens de terno severo, mulheres de vestidos antigos. A casa parecia um museu. Cada porta fechada guardava segredos que eu não queria conhecer.
Paramos diante de uma porta de madeira escura, entalhada com arabescos. Rosa bateu duas vezes.
— Entre — a voz veio de dentro, velha mas firme.
Rosa abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse. Engoli seco. Meus pés, calçados nos sapatos de salto baixo que ela tinha escolhido, pareciam não querer avançar. Mas avancei.
O escritório era grande, estantes de parede a parede cheias de livros encadernados em couro. Uma lareira crepitava baixo, apesar do dia quente. E atrás de uma mesa de mogno, Lyn Silva me observava.
Ela estava sentada com a postura ereta de quem nunca se curvou na vida. Vestido cinza claro, colar de pérolas perfeitamente alinhado, cabelos prateados presos num coque impecável. Os olhos azuis me percorreram de cima a baixo, avaliando cada detalhe — o vestido, os sapatos, o cabelo, o perfume.
— Finalmente acordou, Sua Majestade — ela disse, e riu. Um som baixo, quase afetuoso, mas que gelou minha espinha.
— Senhora... — comecei, a voz saindo mais trêmula do que eu queria. — Com todo respeito. A senhora precisa me ouvir.
Lyn inclinou a cabeça, indicando que eu continuasse.
Respirei fundo. As palavras saíram num fio, apressadas, desesperadas.
— Olha, senhora, eu não posso te dar um neto. Eu sou uma mulher qualquer. Não tenho sangue bom, não tenho educação fina, não tenho nada que sua família queira. Eu trabalho num escritório ganhando salário mínimo, moro num apartamento pequeno com meu irmão, e tenho que cuidar dele. Ele deve estar em casa agora, sozinho, com medo, me esperando. Senhora, por favor. Me deixa ir. Minha mãe já morreu, eu não tenho mais ninguém além dele.
A última frase saiu num soluço que eu não consegui engolir. Minha visão embaçou. Pisquei rápido, forçando as lágrimas a não caírem.
Lyn ficou em silêncio. Os segundos se arrastaram, o tique-taque de um relógio antigo marcando o tempo num ritmo cruel. Ela me olhou sem piscar, os olhos azuis sondando algo que eu não conseguia ler.
Finalmente, ela falou.
— Seu irmão já está aqui.
O chão sumiu de novo.
— O quê?
— Ele está no quarto ao lado do seu. Chegou há uma hora, num carro da família. Está seguro, bem alimentado, com uma televisão ligada no desenho favorito dele. Nós já estamos preparando os papéis para mandá-lo para a melhor escola de Londres. Internato particular, pensão completa, educação de primeiro mundo.
Minha boca abriu e fechou. O ar não entrava.
— Você não pode... — comecei.
— Já fiz — Lyn cortou, a voz doce como veneno. — E não foi um pedido, Isabela. Foi uma decisão.
Ela se levantou, contornou a mesa com passos lentos, arrastando a barra do vestido no tapete persa. Parou na minha frente, tão perto que eu senti o perfume dela — rosas e alfazema, suave mas presente.
— Você vai se casar com meu neto. Vai dar à luz o bisneto que esta família precisa. E seu irmão vai ter a vida que você nunca pôde dar a ele. Você entende o que estou oferecendo?
Oferecendo. Ela chamava aquilo de oferta.
— Eu não quero — sussurrei.
Lyn sorriu. Não era um sorriso cruel. Era pior — era um sorriso de quem sabia que já tinha vencido.
— Não importa, minha filha. O querer vem depois. A obediência vem primeiro.
Ela virou as costas e voltou para trás da mesa, sentando-se com a mesma dignidade de sempre. Pegou uma caneta, abriu um documento, e começou a escrever como se eu já não estivesse mais ali.
Fiquei parada no meio do escritório, o vestido azul-marinho apertando meu peito a cada respiração, o perfume grudado na minha pele como uma promessa que eu não tinha feito. Meu irmão estava na mesma casa. Seguro. Preso como eu.
A porta atrás de mim estava fechada.
E eu não sabia como sair.

