— Amiga, é sério, é um favor simples. Só levar o chá e a sopa pra sala dele.
Eu olhei pra Camila como se ela tivesse pedido pra eu atravessar o oceano a nado. Três meses na empresa, três meses tentando passar despercebida, e ela queria que eu aparecesse na porta do CEO como se fosse a garçonete particular dele.
— Por que você não vai? — perguntei, ajustando o crachá no uniforme.
— Porque eu tenho uma reunião, Bela. Cinco minutos, juro. Deixa a bandeja na mesa, diz que é do almoço executivo, e sai. Ele nem vai te olhar.
Mentirosa. Quando Camila piscava assim, com os olhos verdes cheios de promessas, era porque queria alguma coisa e sabia que eu não ia negar.
— Fico te devendo uma, juro. E assim você conhece o CEO, né? Faz três meses que você entra e sai desse prédio sem nem saber a cara do homem que assina seu contracheque.
— Prefiro assim.
— Bela, vai. Por favor. É rapidinho.
Eu suspirei, agarrei a bandeja de metal pesada que ela me empurrou, e segui pelo corredor de mármore frio. O chá soltava um vapor fino de gengibre e camomila, a sopa cheirava a legumes frescos. O antigo escritório de Rafael Silva era no fim do corredor, portas duplas de mogno com detalhes entalhados à mão.
Bati com os nós dos dedos, hesitante.
— Entre — uma voz masculina, seca, autoritária.
Empurrei a porta e entrei. A luz do candeeiro de latão desenhava sombras compridas nas paredes cobertas de estantes. O cheiro de livros-razão encadernados em couro e poeira seca encheu minhas narinas. Coloquei a bandeja na mesa de mogno e já ia recuar quando ouvi outra voz.
Uma senhora. Elegante, cabelos prateados perfeitamente arrumados, olhos azuis que brilhavam como se guardassem segredos. Lyn Silva, a matriarca. Eu reconheci de fotos antigas que vi na recepção.
— Isso é o quê? — ela perguntou, apontando a sopa.
— Sopa de legumes, senhora. E chá de gengibre. Pedido do almoço executivo.
Ela pegou a colher e provou, fazendo uma careta discreta. Mas continuou comendo, enquanto conversava com o neto em voz baixa. Eu esperei, muda, torcendo para ser dispensada logo. Meus dedos suavam no crachá.
De repente, a senhora tossiu. Uma tosse seca que se transformou em engasgo. Ela largou a colher, levou a mão ao peito, o rosto empalideceu.
— Vó? — Rafael se levantou, os olhos cinzentos arregalados.
Ela balançou a cabeça, ofegante. Eu não pensei duas vezes. Dei a volta na mesa, ajoelhei ao lado dela, coloquei uma mão nas costas e inclinei seu tronco para frente.
— Está consciente? — perguntei, firme. — A senhora consegue respirar?
Ela acenou que sim, fraca. Com a outra mão, peguei o copo de água que estava na bandeja e ofereci. Ela bebeu devagar, aos goles, o ar voltando aos poucos. Fiquei ali, esperando, sentindo o calor das mãos trêmulas dela contra as minhas.
— Passou — ela murmurou, a voz rouca. — Passou. Graças a Deus.
— A senhora tem problemas de digestão? — perguntei, ainda de joelhos. — Foi a sopa?
— Não, querida. Não foi a sopa. Foi a pressão. Sempre sobe quando como algo quente e converso demais.
Ela riu, um som cansado, mas os olhos azuis me fitaram com uma nova intensidade. Como se eu tivesse virado alguém interessante.
— Você salvou a dona Lyn — Rafael falou, a voz gelada. — Levante-se. Já pode ir.
Eu me levantei, aliviada. Mas a senhora não me soltou a mão.
— Qual é o seu nome, minha filha?
— Isabela. Mas todo mundo me chama de Bela.
— Bela. Nome bonito. Apto.
Ela olhou para o neto, que franziu a testa. Eu senti um frio na espinha quando o silêncio se esticou.
— Rafael, finalmente encontrei. — A voz dela era doce, mas tinha um peso de concreto. — Depois de tanto procurar. Ela é a escolhida.
— O quê? — eu soltei antes de pensar.
— Vó, isso é ridículo — Rafael começou, mas ela levantou a mão e ele se calou.
— Essa será sua esposa — Lyn disse, os olhos fixos em mim. — A mulher que vai entrar para a família Silva.
Eu ri. Um riso nervoso, de quem não acredita no que está ouvindo.
— Senhora, com todo respeito, acho que a senhora está confundindo as coisas. Eu sou só uma funcionária, trouxe a sopa, salvei a senhora porque sou gente boa, mas casar? Não, não, isso aí é loucura.
— Silêncio — a voz dela subiu um tom, e os olhos azuis viraram gelo. — Você não tem direito de opinar. Rafael, chame os seguranças.
— Vó...
— Chame os seguranças e leve ela para casa. Ela precisa entender como as coisas funcionam.
Rafael olhou para mim com desprezo. A frieza nos olhos cinzentos me fez dar um passo para trás.
— Senhora, não vou a lugar nenhum. Com licença — eu me virei para sair, mas a porta se abriu e dois seguranças enormes entraram.
— Agarrem ela — Lyn ordenou. — Levem para o carro.
— O quê? Não! — comecei a gritar enquanto eles avançavam. — Soltem! Vocês não podem fazer isso, isso é sequestro! — eu esperneava, tentando me soltar, mas os braços deles eram como aço. — Me solta, seu idiota! Camila! Cadê a Camila?! Socorro!
Eles começaram a me arrastar para fora. Eu segurei no batente da porta, os dedos arranhando a madeira, mas um deles me puxou com força.
— Nocautiem ela — a voz de Lyn veio fria, calma.
Antes que eu pudesse processar o que ela disse, algo bateu na minha nuca. A dor explodiu, e o mundo virou uma mancha escura. Eu senti meu corpo amolecer, as vozes sumindo, e então, nada.

