Eu acordei e o lado dele já estava frio. Passei a mão sobre o lençol vazio, sentindo o cheiro dele ainda no travesseiro, mas ele já tinha ido embora. Dessa vez não ia chorar. Dessa vez quem ia desprezar era eu. Levantei, tomei um banho longo, e quando Rosa entrou para arrumar a cama, eu já estava com o laptop aberto, pesquisando academia perto da mansão. Ela arqueou uma sobrancelha, mas não disse nada.
— Vou sair — falei, sem olhar para ela. — Se alguém perguntar, fala que tô cuidando da minha vida.
Ela sorriu de canto, aprovando.
Me inscrevi na academia mais cara que encontrei, paguei com o cartão que Lyn tinha me dado, e comecei a malhar como se fosse uma obsessão. Se eu ia morar naquela jaula dourada, que fosse do meu jeito. As primeiras semanas foram de raiva pura. Eu malhava até os músculos tremerem, voltava, tomava banho, e me recusava a descer para o café da manhã. Dona Lyn mandou Rosa me chamar, mas eu ignorei. Rafael não aparecia — já era um hábito.
Com o tempo, a raiva virou uma aceitação morna. Eu passava o dia cuidando de mim: cabelo, pele, unhas, academia. Meu corpo começou a mudar — mais definido, mais forte. E quando a noite chegava, se Rafael não vinha, eu ia até o quarto dele. Sem carinho, sem carícia. Só sexo, seco, rápido, como se fosse um dever. Ele aceitava, mas depois que eu terminava, eu me virava de costas e dormia. Não queria conversa, não queria abraço.
Foi assim por meses. Até que um dia, no exame de rotina, o médico sorriu e disse: — Parabéns, senhora Silva. A senhora está grávida.
Eu fiquei paralisada. Olhei para o ultrassom, aquele pontinho pulsando, e senti o chão sumir. Mas também senti uma coisa estranha — uma ponta de esperança. Talvez aquilo fosse meu passaporte para uma vida diferente. Talvez com um herdeiro, Lyn me desse mais liberdade.
Rafael ficou obcecado. Passou a ir a todas as consultas, comprou livros, montou o berçário antes do sexto mês. Ele colocava a mão na minha barriga e falava com o bebê em voz baixa, coisas que eu não conseguia ouvir. Na hora do parto, ele estava lá, segurando minha mão, o rosto tenso, os olhos vidrados. Quando Noah nasceu, Rafael segurou ele como se fosse um tesouro, e eu vi uma coisa nova nos olhos dele — vulnerabilidade.
Mas aquilo não era para mim. Era para o filho. E eu fiquei em segundo plano.
Noah cresceu lindo, com os olhos amendoados iguais aos meus e o cabelo preto do pai. Ele era a alegria da casa — Lyn babava, Rafael babava, até os empregados viviam em volta dele. Eu amava meu filho mais que tudo, mas sentia que, para eles, eu era só a incubadora. A barriga que gerou o herdeiro.
Quando Noah completou quatro anos, eu já não dormia com Rafael há muito tempo. Ele tinha uma amante — eu sabia, todo mundo sabia. Valentina Rossi, uma modelo fria que aparecia nas colunas sociais. Ele não escondia, e eu não ligava. Na verdade, preferia. Assim ele ficava longe de mim.
E eu também arranjei alguém.
Conheci Dante numa tarde, quando saí da empresa depois de levar Noah para ver o pai. Esbarrei nele na calçada, derrubei meus papéis, e ele se abaixou para pegar. Tinha olhos verdes, um sorriso torto, e um jeito despreocupado que me fez esquecer, por um segundo, onde eu estava. A gente começou a sair — cafés discretos, conversas no carro, troca de mensagens. Ele não sabia quem eu era de verdade. Eu dizia que trabalhava numa firma pequena, que era solteira, que o pai do meu filho não estava na jogada.
Mentira, mas ele não precisava saber.
Uma noite, a gente foi para um hotel. Eu estava bêbada, solta, sem as correntes da mansão. No quarto, desabafei tudo — a solidão, o casamento de fachada, a sensação de ser um troféu. Ele ouviu, segurou meu rosto, e me beijou.
O beijo foi devagar, quase hesitante, mas quando eu respondi, ele se soltou. As mãos dele deslizaram pelas minhas costas, desabotoaram meu vestido, e eu senti o tecido escorregar pelos ombros. Ele me deitou na cama, o colchão frio na pele quente. Abriu as pernas com cuidado, os dedos encontrando minha calcinha, e quando ele tocou ali, eu gemi.
— Você é tão linda — ele murmurou, descendo com a boca. Eu senti a língua dele no meu umbigo, descendo, devagar, até chegar onde eu mais queria. Ele lambeu, chupou, beijou como se fosse a última vez. Eu agarrei os cabelos dele, arquei as costas, e quando ele enfiou dois dedos dentro de mim, eu chorei de prazer.
— Dante... — sussurrei, a voz falhando.
Ele subiu, o corpo quente contra o meu. Eu senti o pau dele, duro, pressionando minha entrada. Mordi o lábio, esperando. Ele deslizou para dentro, devagar, enchendo cada centímetro de mim. Eu fechei os olhos, deixando a sensação tomar conta. Ele se moveu num ritmo lento, depois mais rápido, até que o orgasmo veio como uma onda — quente, forte, arrancando um grito de mim. Ele gozou logo depois, o corpo tremendo, o rosto enterrado no meu ombro.
Ficamos ali, suados, os respiros se encontrando. Eu me senti leve pela primeira vez em anos.
De manhã, voltei para casa. Menti para Rosa, disse que tinha dormido na casa da Camila — minha melhor amiga, a única que sabia de Dante. Ela acreditou.
Subi as escadas e quase trombei com Rafael. Ele segurava uma caixa de presente, azul-claro, com laço de cetim.
— Presente para a amante? — perguntei, sem esconder o deboche.
Ele riu, sem graça. — É sim.
— Ah, que legal. Acho que também vou comprar algo para o meu — falei, passando por ele e subindo os degraus dois a dois. Ele não respondeu, mas eu senti o olhar dele nas minhas costas.
No quarto, abri o laptop e comecei a procurar alguma coisa para Dante — um relógio, um perfume, qualquer coisa que mostrasse que eu pensava nele. Mas antes de decidir, Noah invadiu o quarto correndo, pulou na minha cama e me atacou de beijos.
— Mamãe! Por que você não foi me fazer dormir ontem? — ele reclamou, os olhos brilhando.
— Desculpa, meu amor — eu disse, abraçando ele. — A mamãe estava cansada.
Ele aceitou a mentira, como toda criança aceita, e ficou aninhado no meu colo enquanto eu fingia olhar para a tela.
À noite, a casa estava em silêncio. Rafael tinha saído, Lyn estava no quarto, os empregados já tinham ido dormir. Peguei o celular e fui para um cômodo distante, onde pudesse falar com Dante sem ser ouvida. Mas quando entrei na saleta, ouvi a voz dele vindo do outro lado da linha — ele já estava numa chamada.
No começo, achei graça. Ele devia estar falando com um cliente ou um amigo. Mas aí ouvi o nome.
—...a Camila. Calma, ela não desconfia de nada.
Meu coração parou. Camila. Minha melhor amiga. A única pessoa que sabia de Dante, a única que eu confiava. Ele estava com ela. Ele estava traindo a amante — com a minha amiga.
O telefone caiu da minha mão. O ar sumiu. Eu não conseguia respirar. Fiquei ali, parada, ouvindo a voz dele continuar, rindo, fazendo planos. Meu mundo desabou num silêncio que doía mais que qualquer grito.
Corri para o quarto, peguei o vidro de calmante e tomei o máximo que pude. Não queria sentir nada. Queria dormir e não acordar.
Acordei no chão, com a luz do dia entrando pela janela. A cabeça pesada, o coração vazio. Levantei, tomei um banho gelado, e desci para o café da manhã. Não falei com ninguém. Meus olhos estavam vermelhos, mas ninguém perguntou — exceto Dona Lyn.
— Isabela, você está bem?
Eu não respondi. Só me sentei, comi metade de uma torrada, e me levantei. Ela trocou um olhar com Rafael, que estava do outro lado da mesa, mas eu ignorei.
À tarde, meu celular vibrou. Era Camila: "Bela, posso ir aí te ver? Preciso cobrar uma coisa."
Sim, pode vir, digitei. Eu precisava confirmar aquela traição com os meus próprios olhos.
Ela veio. No jantar, eu estava linda — vestido preto, maquiagem pesada, cabelo solto. Fazia anos que eu não me arrumava assim, e até Dona Lyn estranhou. Sentei na cabeceira, ao lado de Rafael, e observei. Camila não parava de olhar para ele, ele não parava de olhar para ela, e ela não parava de olhar para mim.
No meio da conversa, eu soltei, sem levantar a voz: — Dá pra ver que vocês dois se conhecem bem, hein?
Camila congelou. Dona Lyn franziu a testa, confusa.
— Com ou sem roupa, não é mesmo? — completei, o tom doce como veneno.
Rafael se levantou. — O que você está insinuando?
— Hum, então são insinuações? — eu ri, virando para Camila. — Devia ter desconfiado. Por que ele esconderia a amante, se eu já sei que ele me trai? A não ser que fosse minha melhor amiga.
Uma lágrima escorreu, mas limpei rápido. Levantei, a cadeira raspando no chão.
— Faça o que quiser com ele, Camila. Mas nunca encoste no meu filho. Eu juro, pelo que tenho de mais sagrado, que se você tocar num fio de cabelo do Noah, eu te mato. Não é ameaça, é promessa.
Respirei fundo, ajeitei o vestido, e terminei: — Boa refeição para vocês.
Saí sem olhar para trás. No quarto, peguei Noah no colo, tranquei a porta, e tomei um sonífero. Deitei com ele nos braços, sentindo o calor do corpo pequeno contra o meu, e antes de apagar, pensei: pelo menos meu filho ainda é meu.

