Acordei e o lado dele da cama já estava frio. Não precisei esticar a mão pra saber — ele tinha ido embora de novo, como sempre fazia. Dessa vez, porém, eu não ia ficar esperando.
Fiquei parada na cama por alguns minutos, sentindo o vazio do quarto, o silêncio que ele deixava. Meu corpo ainda doía um pouco da noite anterior, mas a dor que importava não era essa. Levantei, tomei banho, me vesti e desci as escadas decidida. Não tomei café da manhã. Não olhei pra ninguém. Peguei meu celular e me inscrevi na academia mais cara que encontrei.
Se eu ia viver presa naquela mansão, que fosse do meu jeito.
As semanas se arrastaram como melado frio. Eu me matriculei em pilates, natação, aula de culinária — qualquer coisa que me tirasse do quarto e da cabeça. Passava horas na academia até meus músculos queimarem, até não sobrar espaço pra pensar nele. Meu corpo mudou, ficou mais definido, mais forte. Eu me olhava no espelho e via uma mulher que não era mais a mesma que entrou naquela sala carregando sopa.
E ele? Ele parou de vir. Não sei se foi por desinteresse ou por perceber que eu não ia mais correr atrás. Agora era eu quem batia na porta do quarto dele quando queria — sim, eu ia, a gente se tocava, e depois eu simplesmente me virava e ia embora. Deixava ele na cama, igual ele fazia comigo. A diferença é que ele nunca pareceu se importar.
Até que um dia o enjoo veio. Rosa notou primeiro, com aquele sorriso que eu já conhecia. Lyn me chamou pro escritório, mandou fazer exames, e quando o resultado chegou — positivo — ela me olhou como se eu tivesse ganhado na loteria. O herdeiro. O legado. O que todos queriam desde o começo.
Rafael... ele mudou quando soube. Ficou presente de um jeito que nunca tinha sido. Acompanhava cada consulta, colocava a mão na minha barriga, falava com o bebê como se já existisse uma pessoa ali dentro. Mas era pra ele, não pra mim. Era pro filho. Eu era só o veículo.
Noah nasceu numa manhã de outono, com os olhos cinzentos do pai e os cachinhos castanhos que vieram de mim. Rafael segurou ele no colo e eu vi algo quebrar naquela armadura gelada — ele amou aquele menino com uma intensidade que nunca me dedicou. Lyn babava, a casa inteira babava, e eu fiquei ali, no meio daquela adoração toda, sentindo que tinha cumprido minha função.
Os anos passaram. Noah cresceu, lindo e esperto, e ele se tornou minha única razão pra não enlouquecer. Rafael e eu viramos estranhos dividindo um corredor — já não nos tocávamos, já não nos olhávamos como antes. Eu sabia que ele tinha arranjado uma amante. Não perguntei, não investiguei, porque não me importava. Ou pelo menos foi o que eu repeti pra mim mesma até acreditar.
Foi também por essa época que eu conheci Dante.
Eu tinha saído da empresa — sim, depois de Noah nascer, Lyn permitiu que eu trabalhasse num cargo simbólico, só pra não enlouquecer. Foi numa tarde comum, eu estava levando Noah pra casa depois de visitar o pai na empresa, e na pressa de atravessar a rua, trombei com ele.
— Desculpa — eu falei, abaixando pra pegar o que tinha caído.
— Não, desculpa minha — ele respondeu, e quando olhei pra cima, vi um homem de olhos verdes, sorriso torto, que me encarava como se eu fosse interessante.
Dante era tudo que Rafael não era. Fácil, presente, sem jogos. Começamos a sair — cafés que se estendiam por horas, conversas que não exigiam defesas. E numa noite em que eu estava bêbada, depois de desabafar tudo — o casamento de fachada, a solidão, a sensação de ser um útero ambulante — a gente foi pra um hotel.
Ele me ouviu. Ele realmente me ouviu.
Naquela noite, eu lembro de sentir pela primeira vez em anos que alguém me via. Dante me tocou como se eu fosse frágil e forte ao mesmo tempo, e eu me entreguei de um jeito que não me entregava há muito tempo. O sexo foi bom, mas o que ficou foi a sensação de ser desejada de verdade.
No dia seguinte, voltei pra casa e menti que tinha dormido na casa da Camila. Era uma mentira fácil — Camila era minha única amiga, a única pessoa de fora que ainda fazia parte da minha vida. Ela sempre cobria meus sumiços, sempre me apoiou. Ou pelo menos era o que eu pensava.
Subindo as escadas naquela tarde, quase trombei com Rafael no patamar. Ele segurava uma caixa de presente, daquelas bem elegantes, embrulhada em papel seda.
— Presente? — perguntei, sem emoção.
— Pra amante — ele respondeu, com um sorriso que não chegava nos olhos.
Ri.
— É mesmo? Acho que também vou comprar alguma coisa pro meu — falei, e subi as escadas sem olhar pra trás.
Eu tava ficando apaixonada pelo Dante. Era bom. Era melhor do que passar as noites esperando um homem que nunca ia me amar de volta. Subi pro quarto, abri o celular e fiquei procurando algo pra comprar pra ele — um relógio, um perfume, qualquer coisa que dissesse "você importa".
Foi quando Noah me atacou com um abraço pelas costas.
— Mamãe! Você não foi me fazer dormir ontem!
Ele tinha quatro anos, os mesmos olhos do pai, mas a alma era toda minha. Peguei ele no colo, sentei na cama com ele no colo e tentei inventar uma desculpa que não fosse "mamãe tava transando com outro homem".
— É que mamãe chegou tarde, meu amor, desculpa.
Ele me beijou o rosto, satisfeito com a explicação, e saiu correndo pra brincar. Eu fiquei sentada, o peso do que eu tava fazendo apertando meu peito. Mas não por Rafael. Por mim. Por estar vivendo uma mentira.
A casa estava estranhamente silenciosa naquela noite. Lyn tinha ido dormir cedo, Noah já estava na cama. Eu fui para um cômodo mais afastado, onde sabia que poderia falar com Dante sem ser ouvida. Liguei pra ele, de novo e de novo e nada .
Logo ouvi Rafael falar ao telefone.
Ela estava falando com a amante só pode.
Ele falava de um jeito meio simulado.
— Tô com saudade também — ele disse, e eu sorri achando que era brincadeira. — Não, ela não desconfia de nada. A gente se vê quarta, no mesmo lugar.
Meu sorriso congelou. Ele tava falando com outra mulher.
— Você é tão gostosa, sabia? — ele continuou, a voz cheia de tesão. — Essa lingerie que você comprou... hum, vou arrancar com os dentes.
Ele é um imbecil, porque Dante era meu, ele era o meu escape, ele não podia estar fazendo isso comigo.
— Sabia que você é a única que me entende, Camila.
Camila.
O mundo parou. O som sumiu. Eu fiquei ali, ouvindo ele falar com a minha melhor amiga do mesmo jeito que falava comigo. Meu coração parou de bater por um segundo, e na retomada veio tão forte que doeu.
Não respirava. Não piscava. Eu só fiquei ali, o corpo inteiro tremendo, o suor frio escorrendo pelas costas. Ela. A Camila. A pessoa que cobria meus sumiços, que sabia de tudo, que me ouvia falar do Dante Ela tava transando com o Rafael.
Desligou
Minhas pernas me levaram pro quarto sem que eu mandasse. Peguei o frasco de calmante que Rosa me dava quando a ansiedade apertava — e tomei. Tomei mais do que devia. Tomei até sentir o mundo ficar leve, até o chão sumir debaixo dos meus pés.
Acordei no chão, na manhã seguinte. O sol entrava pela janela, e eu tava de bruços no tapete, a boca seca, a cabeça latejando. Noah ainda tava dormindo no berço do lado. Levantei com esforço, tomei banho, me vesti com a primeira roupa que encontrei. Não passei maquiagem. Não penteie o cabelo.
Desci pro café da manhã e me sentei na ponta da mesa, longe de todo mundo.
Rafael já estava lá, tomando café como se nada tivesse acontecido. Lyn me olhou, sentiu o clima, franziu a testa.
— Isabela, você está com os olhos vermelhos. Passou mal?
Não respondi.
Ela me encarou por um longo momento, mas eu só mexia a comida no prato sem levar nada à boca. Levantei antes de todo mundo, sem dar satisfação, e subi de volta pro quarto.
No meio da tarde, o celular vibrou. Era Camila.
"Bela, posso ir te ver hoje? Precisamos conversar."
Eu ri. Um riso amargo, seco. Claro que ela queria conversar. Sabia que eu tinha descoberto, ou tava com medo que eu descobrisse. Respondi que sim, que viesse, porque eu precisava confirmar aquela história de perto. Precisava ver nos olhos dela se era verdade.
Na hora do jantar, eu desci diferente.
Coloquei um vestido vermelho que há anos não usava — decotado, justo, que marcava cada curva que a academia tinha desenhado. Passei batom vermelho, delineador, perfume. Soltei o cabelo cacheado e deixei cair sobre os ombros. Quando entrei na sala de jantar, até Lyn levantou uma sobrancelha.
— Isabela, você está... linda.
— Obrigada, senhora Lyn — respondi, sentando com a postura ereta.
Camila já estava lá. Ela me olhou, e eu vi o brilho de culpa nos olhos verdes dela. Vi como ela desviava o olhar quando eu a encarava. Vi também como ela olhava pra Rafael — rápido, discreto, mas eu sabia reconhecer esse olhar agora.
Rafael também estava estranho. Ele me olhava, e nos últimos anos ele mal me olhava. Mas naquela noite, ele não tirava os olhos de mim. E de Camila. E de mim de novo. Eu sentia o movimento dos olhos dele entre nós duas.
O jantar foi servido. Todo mundo comeu em silêncio, a tensão grossa como nevoeiro. Eu esperei. Deixei o momento cozinhar. Até que não aguentei mais.
— Dá pra ver que vocês dois se conhecem bem, né? — soltei, a voz calma, quase doce.
Camila congelou, o garfo parado no meio do caminho. Lyn franziu a testa, confusa.
— Com ou sem roupa, não é mesmo? — completei.
Rafael me encarou, os olhos cinzentos estreitando.
— O que você tá insinuando, Isabela?
— Hum... então são insinuações? — brinquei, virando o rosto devagar pra encarar Camila. — É... bem que eu devia ter desconfiado. Por que ele esconderia a amante se eu já sei que ele tá me traindo? A não ser que fosse minha melhor amiga.
Uma lágrima escorreu. Só uma. Limpei rápido, com a ponta dos dedos.
Camila abriu a boca, mas nada saiu. Rafael ficou pálido, os dedos apertando o guardanapo.
— Faça o que quiser com ele — eu disse, sem tirar os olhos de Camila. — Mas nunca encoste no meu filho. Eu juro por Deus que eu mato você.
Levantei da mesa com a calma de quem já tinha perdido tudo. Ajeitei o vestido, respirei fundo.
— Boa refeição pra vocês.
Subi as escadas sem correr, sem olhar pra trás. Quando entrei no quarto, tranquei a porta. Noah já estava na cama, dormindo, os cachinhos espalhados no travesseiro. Peguei ele no colo com cuidado, deitei na cama e apertei ele contra o peito.
Ele murmurou no sono, aconchegou o rosto no meu pescoço.
Peguei o frasco de calmante, tomei o suficiente pra apagar tudo — o som da voz dela, o cheiro do perfume dele, a imagem dos dois juntos — e deixei o sono me levar com meu filho nos braços.

