A poeira da tarde entrava pela janela, dançando na luz fraca. O tile estava gelado sob os joelhos de Mel. Ela sentiu o rasgo no ombro, o tecido fino pendendo, expondo a pele clara onde a alça do sutiã marcava.
Hélio não se moveu. Ficou ali, em pé, o corpo curvo sobre a bengala, os olhos amarelos fixos nela como se ela fosse um inseto que ele estava decidindo esmagar. A boca dele se moveu, lenta, saboreando as palavras antes de soltá-las.
—Você acha que escola te deu direito de abrir essa boca imunda contra teu sangue?
A voz era um rangido seco, feito folha rasgando. Mel sentiu as mãos do pai apertarem seus ombros, os dedos grossos cavando na carne macia.
—Não foi isso que eu disse—a voz dela tremia, mas ela forçou as palavras a saírem—, eu só falei que estupro é crime, que a lei—
A bengala bateu no chão. Uma vez. Seca. O som ecoou pelas paredes da sala.
—Crime?—Hélio cuspiu a palavra—Crime é filha da puta desrespeitar o avô na própria casa dela. Crime é uma menina de peito mole abrir a boca pra dar lição em homem feito.
Ele deu um passo. A bengala arrastou no tile. Mel sentiu o cheiro dele—cigarro, suor velho, uma coisa podre no hálito.
—Tu sabe o que acontece com mulher que esquece o lugar dela, menina?
Mel ergueu o queixo. Os olhos dele estavam perto demais, amarelos, com vasos vermelhos nadando no branco.
—Meu lugar é onde eu quiser—a voz falhou no final, virou um chiado—Eu não sou propriedade de ninguém.
Hélio riu. Um som seco, sem humor, que fez o estômago dela virar.
—Ouviu isso, Alcides?—ele olhou por cima do ombro de Mel—Tua filha virou doutora. Passou na escola e agora sabe mais que os homens da casa.
Alcides não respondeu. As mãos dele apertaram mais. Mel sentiu os polegares cavarem perto das omoplatas, empurrando ela para frente, forçando o tronco a inclinar.
—Vai me ensinar o que é crime, menina?—Hélio se inclinou. O rosto dele estava a palmos do dela. A pele parecia couro velho, cheia de sulcos fundos. A boca dele era fina, quase sem lábios—Vou te ensinar uma coisa que tua escola não ensina. O que acontece quando uma mulher esquece que foi feita pra servir.
A mão dele—óssea, as veias saltando como cordas—subiu. Não rápido. Devagar. Como se tivesse todo o tempo do mundo. Os dedos tocaram o rasgo no ombro dela, a ponta do vestido pendurada.
Mel prendeu a respiração. O coração batia tão forte que ela sentia o pulso nos dentes.
—Vovô, por favor—a voz saiu fina, de menina—, eu não quis desrespeitar—
O pano rasgou. O som foi alto, limpo, a costura cedendo do ombro até a cintura. O vestido caiu, deslizou pelo braço direito, expôs o sutiã barato, a pele morena coberta de arrepios. Mel fez um som—um gemido engasgado—e tentou cobrir o peito, mas Alcides segurou os pulsos dela, puxou os braços para trás.
—Deixa—a voz do pai veio grave, perto da orelha dela—, não adianta.
Ela sentiu o hálito quente do pai na nuca, sentiu os dedos grossos apertando os pulsos finos dela, os ossos roçando um no outro. Tentou se soltar, mas o pai era forte, os braços dele grossos de trabalho pesado, e ela era só uma menina de dezesseis anos com o vestido rasgado e os seios cobertos por um sutiã que já tinha visto dias melhores.
—Bonita—Hélio disse, a voz baixa, quase um sussurro—. Bonita igual tua avó era, antes de aprender a ficar quieta.
Mel virou o rosto. Viu Iracema parada na porta da cozinha, uma pilha de pratos nas mãos trêmulas, os olhos fixos no chão. A avó não olhava para ela. Não olhava para ninguém. Ela se virou e voltou para a cozinha, e a porta de tela bateu, e Mel sentiu o abandono como uma coisa física, um buraco no peito.
—Olha pra mim—Hélio disse.
Ela não obedeceu.
A mão dele agarrou o queixo dela, os dedos finos e fortes, as unhas grossas cravando na carne. Virou a cabeça dela com força, forçou ela a encarar os olhos amarelos.
—Quando um homem te manda olhar, tu olha—a voz dele era calma, pior do que se ele estivesse gritando—. Essa é a primeira lição. Aprende rápido que dói menos.
Mel sentiu a lágrima queimar no canto do olho. Não deixou cair. Mordeu o lábio, sentiu o gosto de sangue, o sal, o metal.
—O que cê vai fazer comigo?—a voz saiu firme, mais firme do que ela esperava—Vai me bater? Vai me matar?
Hélio soltou o queixo dela. A mão dele desceu, passou pelo pescoço, pelos seios cobertos pelo sutiã, parou no colo dela. Ela sentiu os dedos ossudos pressionarem a coxa, a unha roçando a pele.
—Não—ele disse, a voz calma demais—. Vou te mostrar o que é ser mulher de verdade. O que todas as mulheres da minha casa aprendem, mais cedo ou mais tarde.
Ele olhou para cima. Para Alcides.
—Segura ela direito.
Alcides puxou os braços dela mais para trás, inclinou o tronco dela para frente, forçou o peito dela a empinar. Mel sentiu o sutiã apertar as costelas, sentiu os seios pesarem para baixo, sentiu o sutiã ceder um pouco com o movimento.
—Por favor—a voz dela quebrou—, pai, por favor, não deixa—
—Cala a boca—Alcides disse, e a voz dele era oca, vazia, como se ela já fosse um fantasma—. Tu quis falar. Agora vai aprender a calar.
Hélio ajoelhou na frente dela. Os joelhos estralaram, bateram no tile com um som seco. A bengala caiu no chão. Ele ficou ali, de joelhos, o corpo dele na frente dela, e Mel sentiu o cheiro da roupa dele—naftalina, suor, urina, porque velhos sempre cheiram um pouco a urina.
—A primeira lição—ele disse, e a mão dele subiu, tocou o sutiã dela, os dedos grossos enfiados por baixo do tecido—. É que teu corpo não te pertence. Nunca pertenceu.
Ele puxou. O sutiã rasgou no meio, o elástico cedendo com um estalo, e os seios dela caíram, nus, expostos ao ar quente da sala. Mel soltou um som—um gemido de vergonha, de horror—e tentou se encolher, mas Alcides segurou firme, os braços dela esticados para trás, o peito dela empinado para frente.
Hélio olhou. Devagar. Os olhos amarelos percorreram o corpo dela, os seios pequenos, os mamilos escuros, a pele arrepiada.
—Bonita—ele repetiu, a voz mais baixa agora, quase íntima—. Peitinho duro. Toda arrepiada. Tu sabe o que isso significa, menina?
Mel não respondeu. A boca dela tremia. Ela sentia o ar gelado nos mamilos, sentia eles endurecerem, sentia a vergonha queimar o rosto.
—Significa que teu corpo já sabe—Hélio continuou, a mão subindo, o polegar roçando o mamilo esquerdo—. Já sabe o que é. Já sabe pra que serve. A cabeça pode encher de ideia de escola, mas o corpo… o corpo não mente.
O polegar apertou. Rodeou. A unha grossa arranhou a pele sensível, e Mel sentiu o corpo trair ela—um arrepio que subiu da barriga, um aperto no estômago, os mamilos endurecendo mais sob o toque.
—Viu?—Hélio riu, baixo—. O corpo sabe. A cabeça é que te engana.
Mel fechou os olhos. As lágrimas escorreram, quentes, silenciosas. Ela sentiu a mão do avô descer, passar pela barriga, parar na barra do vestido—o que ainda cobria a metade de baixo do corpo dela.
—Abre os olhos—ele disse.
Ela não abriu.
A mão dele apertou a coxa dela. A unha cavou.
—Eu disse abre os olhos.
Ela abriu. As lágrimas turvavam tudo, mas ela viu o rosto dele, perto demais, os olhos amarelos brilhando, a boca fina curvada num sorriso que não chegava aos olhos.
—Boa menina—ele disse—. Vou te mostrar como uma boa menina se comporta.
A mão dele subiu por baixo do vestido, os dedos ossudos roçando a coxa nua, subindo, subindo, até tocar a calcinha dela—algodão barato, branco, com uma florzinha bordada que a mãe tinha comprado no mercado.
Mel prendeu a respiração. O corpo inteiro dela travou.
—Por favor—a voz saiu num fio—, vovô, não—
—Silêncio—a voz dele era calma, paciente, como se ele estivesse explicando algo simples—. Quando uma mulher abre a boca sem permissão, ela é punida. Mas tu vai aprender de outro jeito. Vai aprender que o silêncio é melhor quando a boca tá ocupada.
Os dedos dele apertaram a calcinha, puxaram o elástico, e Mel sentiu o ar tocar a pele onde nenhum homem tinha tocado antes—o ventre, os pelos, a umidade quente que brotou sem aviso, sem permissão, uma traição do corpo que ela não entendeu, não queria, mas sentiu.
—Olha só—Hélio disse, a voz cheia de admiração suja—. Tá molhada. Toda molhadinha, e nem sabe por quê.
Mel balançou a cabeça. As lágrimas caíam sem parar.
—Não—ela sussurrou—, não é verdade—
—É sim—a mão dele deslizou, os dedos grossos enfiados por baixo do elástico, tocando os lábios dela, separando eles com uma familiaridade que gelou o sangue dela—. O corpo sabe, menina. O corpo sempre sabe. Tu pode falar o que quiser, mas o corpo… o corpo obedece.
O dedo dele entrou. Só a ponta, só um pouco, mas Mel sentiu—sentiu a unha grossa, a pele áspera, a intrusão estranha e quente—e um som escapou da garganta dela, um gemido que ela não autorizou, que veio de algum lugar que ela não conhecia.
—Pronto—Hélio sussurrou—. Agora tu começou a aprender.
O dedo dele se moveu dentro dela. Um movimento lento, exploratório, como se ele estivesse mapeando o que era dela e agora era dele. Mel sentiu a unha grossa arranhar a parede interna, sentiu a pele seca e áspera deslizar, e o gemido que escapou foi de dor, de nojo, de uma coisa que ela não sabia nomear.
—Bonitinha—Hélio disse, a voz baixa, quase carinhosa—. Apertadinha. Virgem mesmo. Faz tempo que não sinto uma assim.
Ele puxou o dedo. Levou à boca. Lambeu devagar, os olhos amarelos fixos nos dela, e Mel sentiu o estômago revirar, sentiu o gosto amargo da bile subir na garganta.
—Salgadinha—ele disse, e riu—. Gosto de mulher nova.
Atrás dela, Alcides mudou o peso do corpo. As mãos dele apertaram os pulsos dela, e Mel sentiu os dedos grossos cavarem a pele, sentiu o pai se inclinar, o hálito quente perto da orelha dela.
—Ainda dá tempo de pedir desculpa—a voz dele veio baixa, estranha, como se ele estivesse dando uma chance—. Pede desculpa pro teu avô. Fala que tu tava errada. A gente esquece isso.
Mel virou o rosto. Encarou o pai. Os olhos castanhos dele estavam perto demais, e ela viu alguma coisa ali—não bondade, não piedade, mas uma última ponta de hesitação, um resto de pai que ainda existia em algum lugar.
—Eu não tava errada—a voz dela saiu firme, mesmo com as lágrimas escorrendo—. Estupro é crime. A lei—
A mão de Alcides apertou o rosto dela. Não bateu. Só segurou, os dedos grossos comprimindo as bochechas, forçando a boca dela a abrir.
—Tu escolheu—ele disse, e a hesitação morreu na voz dele—. Tu escolheu, Mel.
Ele soltou o rosto dela. As mãos voltaram para os ombros, empurraram ela para frente, forçaram o tronco dela a inclinar até o peito dela quase tocar o chão. A posição deixou o corpo dela exposto, a bunda empinada, os seios balançando, a calcinha ainda presa na cintura mas molhada, grudada na pele.
—Segura assim—Hélio disse, e a voz dele estava diferente agora—mais rouca, mais apertada—. Vou te mostrar o que um homem faz com uma mulher que esquece o lugar dela.
Ele se levantou. Os joelhos estralaram, mas ele ficou em pé, o corpo curvado sobre ela, as mãos ossudas puxando o cinto da calça. O som do metal—fivela soltando, couro deslizando—fez Mel tremer. Ela ouviu a calça dele cair, ouviu o barulho do pano, sentiu o cheiro dele ficar mais forte, mais perto.
—Olha—ele disse, e a voz dele era dura agora—. Olha o que tu vai receber.
Mel não quis olhar. Mas a mão dele agarrou o cabelo dela, puxou a cabeça dela para trás, forçou o olhar dela para cima. Ela viu. Viu o pau do avô—duro, fino, comprido, a pele escura e enrugada, a ponta vermelha e úmida, as veias saltando como minhocas. Viu os pelos grisalhos em volta, a barriga caída, as pernas finas e brancas.
—Bonito, né?—a voz dele tinha orgulho—. Aos oitenta e cinco e ainda funciona. Melhor que muito jovem por aí.
Mel fechou os olhos. As lágrimas escorreram pelos cantos, quentes, salgadas, escorrendo até o chão.
—Abre—ele disse, e puxou o cabelo dela com força—. Abre a boca.
Ela apertou os lábios. Sacudiu a cabeça, um movimento pequeno, desesperado.
—Não—a voz saiu num sussurro—não, por favor, vovô—
—Eu não vou repetir—a voz dele era gelada—. Abre a boca ou eu vou arrancar teus dentes na base da bengala. Tu escolhe.
Mel abriu. Os lábios tremeram, os dentes se separaram, e ela sentiu o pau dele bater nos lábios dela, a ponta quente e molhada roçando a língua. O gosto veio imediato—sal, suor, cheiro de mijo, uma coisa acre que fez o estômago dela virar.
—Enfia—Hélio disse, e empurrou o quadril—. Enfia essa boca no meu pau.
Ele entrou. Não devagar. Não com cuidado. Ele empurrou o pau na boca dela, forçou até bater no fundo da garganta, e Mel sentiu a ânsia subir, sentiu a garganta fechar, sentiu o ar faltar. Ela tossiu, engasgou, tentou puxar a cabeça para trás, mas a mão dele segurou firme, os dedos ossudos apertando o cabelo.
—Chupa—ele disse, a voz apertada—. Chupa que nem uma puta.
Mel não sabia como. Ela nunca tinha feito aquilo. A boca dela estava aberta demais, os dentes roçando a pele, e ela sentiu o pau dele pulsar na língua dela, sentiu o gosto ficar mais forte, mais salgado, mais acre.
—Com a boca, menina—Hélio disse, e empurrou o quadril de novo—. Envolve com os lábios. Passa a língua. Tu nunca viu filme pornô não?
Ela tentou. Fechou os lábios em volta do pau, passou a língua na ponta, sentiu o gosto de urina e suor. A mão dele guiou a cabeça dela, empurrando, puxando, marcando um ritmo—lento no começo, depois mais rápido, mais fundo.
—Isso—a voz dele estava diferente agora, mais solta, mais molhada—. Isso, putinha. Tá aprendendo.
Mel sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto, misturadas com saliva, com o gosto dele. Sentiu os joelhos doerem no tile, sentiu as mãos do pai apertarem os ombros dela, sentiu o corpo inteiro tremer.
—Mais fundo—Hélio disse, e empurrou a cabeça dela para baixo com força—. Engole ele inteiro.
O pau bateu no fundo da garganta. Mel engasgou, tossiu, sentiu a ânsia subir de novo, mas a mão dele não soltou. Ele segurou ela ali, o pau enterrado na boca dela, o corpo imóvel, esperando ela se acalmar.
—Respira pelo nariz—ele disse, calmo—. Tu consegue.
Ela tentou. Inspirou pelo nariz, sentiu o ar entrar aos poucos, sentiu a garganta se acostumar com a intrusão. A mão dele começou a mover de novo, puxando, empurrando, o ritmo mais rápido agora, mais urgente.
—Isso—a voz dele estava rouca, ofegante—. Isso, menina. Toma. Toma o leite do teu avô.
Mel ouviu o som—o som molhado da boca dela em volta do pau dele, o som da respiração dele ficando mais rápida, o som dos gemidos que escapavam da garganta dele. Ela sentiu o pau endurecer mais, pulsar mais forte, sentiu a ponta inchar na língua dela.
—Vai—ele disse, a voz apertada—. Vai, vai, vai—
O jato veio quente, grosso, salgado. Mel sentiu o gozo encher a boca dela, escorrer pela língua, descer pela garganta. Ela tossiu, engasgou, mas a mão dele segurou a cabeça dela no lugar, forçou ela a engolir, a sentir o gosto acre e amargo escorrer, encher o estômago dela de nojo.
Ele ficou ali, o pau mole ainda na boca dela, a respiração voltando aos poucos. Depois puxou, devagar, deixando um fio de saliva e gozo escorrer do canto da boca dela.
—Pronto—ele disse, a voz cansada, satisfeita—. Primeira lição. Aprendeu direitinho.
Mel caiu para frente. As mãos do pai soltaram os ombros dela, e ela desabou no chão, o corpo tremendo, a boca cheia do gosto dele, o vestido rasgado, os seios nus, a calcinha molhada grudada na pele. Ela cuspiu no chão, cuspiu o resto de gozo, mas o gosto ficou, grudou na língua, na garganta, na alma.
—Levanta—a voz de Alcides veio de cima—. Ainda não terminou.
Mel ergueu a cabeça. Olhou para o pai. Ele estava de pé, o cinto aberto, a calça afrouxada, os olhos escuros fixos nela. E ela viu. Viu o volume na calça dele, duro, esperando.
—Não—a voz dela saiu num fio—, pai, não—
Ele não respondeu. Só a pegou pelo braço, puxou ela para cima, forçou ela a ficar de joelhos de novo. E Mel entendeu que a noite estava apenas começando.


